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domingo, 19 de janeiro de 2014

Artigo Jornal Tribuna em 19/01/2014

Metralhadoras, Analgésicos ou Bom Senso?




Saúde e Segurança são temas sempre elencados entre as maiores preocupações dos brasileiros, também são os preferidos nas campanhas eleitorais e nas manchetes sensacionalistas em rádio, jornal, televisão e agora nas mídias sociais. O bombardeiro diário que recebemos sobre as mazelas dos dois setores acabam criando um misto de impotência e revolta que incentiva o clima de guerra encontrado nos serviços de Saúde de todo país. Ocorre que poucos param para refletir que as dificuldades econômicas, a desestruturação das famílias, o aumento do consumo de álcool e drogas, as barbaridades no trânsito, o sexo descompromissado, a violência urbana, a falta de higiene pessoal e coletiva, enfim, tudo deságua na porta da rede de saúde. Sim! Se o cidadão não cuida do seu quintal e o mosquito da dengue se prolifera, o resultado será unidades de saúde lotadas. Se o marido agride a mulher, se o motorista bebe antes de dirigir, se um grupo de amigos resolve promover uma festinha regada a cocaína ou crack, onde estas histórias vão terminar? Certamente no atendimento à saúde. Assim, por mais profissionais que sejam contratados e por mais unidades que sejam construídas, parece que a necessidade é sempre maior que a oferta. Diante desta crescente demanda uma das respostas dos técnicos da saúde foi a Política Nacional de Humanização que entre suas diretrizes prevê a priorização do acolhimento, uma postura ética na escuta dos problemas dos usuários do sistema. Também, a classificação de risco como forma de organização das filas de espera priorizando os que mais necessitam de atendimento. Outras estratégias precisam ser aperfeiçoadas, entre as quais a educação e orientação da população de como melhor utilizar os serviços. Outro problema recorrente que precisa ser enfrentado é a elevada quantidade de agressões, ofensas, roubos e furtos que vitimizam os profissionais da saúde. Na prática, os cuidadores estão precisando de cuidados. Como exigir que um trabalhador humilhado, ameaçado ou agredido utilize em plenitude seus conhecimentos e técnicas para minorar o sofrimento do adoentado. Diariamente, perdemos profissionais que se recusam em trabalhar em determinadas regiões, posicionamento compreensível já que ninguém quer perder a vida ou o patrimônio material adquirido a duras penas.  A quantidade de trabalhadores da saúde afastados por stress, depressão, síndrome do pânico ou em razão de agressões é crescente. Além da repactuação do financiamento que sacrifica municípios polos como Ribeirão Preto, devemos garantir mudanças estruturais, físicas e arquitetônicas que possibilitem maior conforto e segurança dentro das unidades de saúde como forma de garantir bem-estar e integridade física dos profissionais de saúde, pacientes e acompanhantes. O SUS é a única porta que permanece aberta diariamente, mas corre o risco de se transformar em uma trincheira. Se medidas urgentes e objetivas não forem adotadas reproduziremos os cenários de guerra onde coletes à prova de balas, fuzis e metralhadores conviverão ao lado de analgésicos e antibióticos. Mais do que levantar problemas, o momento é de compreender os fatos geradores e construir soluções coletivas e consensuadas. Neste sentido, a melhor resposta é o controle social e a participação popular com a imediata reativação e reestruturação de todas as Comissões Locais de Saúde, ampliação da atuação do Conselho Municipal de Saúde e a mobilização de todos os setores da sociedade para que nossas unidades de saúde sejam espaços de vida. No SUS a nossa guerra deve ser contra a doença e não contra o semelhante.

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