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domingo, 8 de dezembro de 2013

Artigo Jornal Tribuna 08.12.2013


Nelson Mandela, Lucas Neiva e Edenilson dos Santos 


O dia 05 de dezembro de 2013 já entrou para a história e são três motivos para recordá-lo. Pela manhã daquela quinta-feira conhecemos Lucas Neiva, uma criança de oito anos de idade que cursava uma escola particular em Guarulhos, onde obtinha ótimas notas, mas teve sua renovação de matrícula rejeitada em razão do corte de cabelo.  Segundo consta, a direção da escola recomendou que ele abandonasse o estilo “black power”, “cheio e crespo”, por um mais adequado. Diante da recusa veio a retalhação. No início da tarde, na mesma cidade, foi localizado o corpo do operário Edenilson Jesus dos Santos, de 24 anos de idade, vítima fatal do desabamento de um prédio em construção. No final da mesma tarde recebemos a notícia da morte de Nelson Mandela, 95 anos de idade. Três pessoas, três histórias completamente diferentes, mas qual a ligação? Nascido na Bahia, Edenilson buscava uma vida melhor na cidade grande. Sem muitas opções se submetia às questionáveis condições de trabalho que agora estão sendo denunciadas. Dormia na obra de segunda a sexta-feira e aos finais de semana ia para a casa da irmã, no bairro Jardim Tranquilidade. Os nordestinos auxiliaram de modo destacável no progresso da região sudeste, especialmente do Estado de São Paulo, locomotiva do país, no entanto, continuam marginalizados, perseguidos e por vezes, não conseguem desfrutar dos estádios, edifícios, repartições públicas e tudo mais que ajudaram a construir. Em sua terra a luta é contra a seca, em terras distantes a luta parece mais cruel que a degradante ausência de água. Lucas conhece pouco da vida, em contato com as primeiras letras está descobrindo os números, as regras gramaticais e conhecimentos gerais que são oferecidos pela escola formal. E foi justamente no colégio que começou a aprender uma lição geralmente reservada para a escola da vida: As pessoas são preconceituosas. A atitude de sua mãe de denunciar o caso foi fundamental para que o caso ganhe repercussão e não se some aos milhares que diariamente ocorrem pelo país e permanece sem a devida resposta. Mandela dizia que: "a educação é o principal instrumento que alguém pode usar para mudar o mundo". Ele foi o primeiro da família a frequentar uma escola, aos sete anos de idade, o episódio Lucas nos faz refletir sobre a educação atual, até mesmo na rede privada de ensino. Mandela foi modelo em um mundo tão carente de referências positivas. Enquanto, os produtores de Hollywood projetam na ficção científica homens com capas, óculos e superpoderes, ele foi um dos maiores heróis contemporâneos. Sua vida e sua luta servem de referência para grandes personalidades políticas mundiais. Para Ban Ki-moon, o líder sul-africano foi “um gigante pela justiça”.  “Muito no mundo inteiro foi influenciado pela sua luta altruísta pela dignidade, igualdade e liberdade humana. Ele tocou as nossas vidas de uma forma muito pessoal”, disse o secretário-geral da Organização das Nações Unidas. Para o Russo Vladimir Putin: “Mandela, tendo passado pelas provações mais difíceis, estava comprometido até ao fim dos seus dias, com os ideais de humanismo e justiça”. Dilma Roussef descreveu Mandela como “personalidade maior do século 20”. Em nota a presidenta do Brasil afirma: “Mandela conduziu com paixão e inteligência um dos mais importantes processos de emancipação do ser humano da história contemporânea – o fim do Apartheid na África do Sul”. Para o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa: “A morte de Nelson Mandela torna o mundo mais pobre de referências de coragem, dignidade e obstinação na defesa das causas justas”. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ressaltou: "Eu sou um dos incontáveis que se inspirou na vida de Nelson Mandela. Minha primeira ação política foi um protesto contra o Apartheid. Estudei suas palavras e seus escritos. O dia em que ele foi libertado da prisão me deu a percepção do que os seres humanos podem fazer quando são guiados por suas esperanças, e não por seus medos". Durante seu depoimento no Julgamento de Rivonia, 20 de abril de 1964, Mandela disse: "Lutei contra a dominação branca e contra a dominação negra. Defendi o ideal de uma sociedade democrática e livre, na qual todas as pessoas vivem juntas em harmonia e oportunidades iguais. É um ideal para o qual espero viver e conseguir realizar. Mas, se for preciso, é um ideal para o qual estou disposto a morrer".  Este ideal permanece vivo até hoje na África, no Brasil e em todo planeta.  Como um grande número de brasileiros, Edenilson morreu sem ter muitas oportunidades e Lucas está sendo privado da liberdade de optar pelo seu corte de cabelo. É apenas a primeira de muitas batalhas que surgirão, ou como diria Mandela: "Depois de escalar uma grande montanha se descobre que existem muitas outras montanhas para escalar". Colhamos a oportunidade para uma reflexão sobre o mundo que temos e o mundo que queremos. Para viver em harmonia nosso povo precisa avançar não apenas em políticas públicas, mas também em mudança de atitudes e a construção de um mundo melhor inicia-se com a concretização de sonhos. Mandela tornava seus sonhos realidade: "Sonho com o dia em que todos levantar-se-ão e compreenderão que foram feitos para viverem como irmãos".