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domingo, 12 de maio de 2013

Artigo Jornal Tibuna - 12.05.2013

Só para lembrar


Hoje estou feliz, estamos celebrando os 135 anos da abolição dos escravos. Como é dia de festa, não farei reclamações ou protestos. Não vou sequer recordar trechos sinistros da história de um povo que foi escravizado, sofreu toda a sorte de infortúnios e quando, enfim conseguiu a “liberdade” foi jogado ao léu.  É estranho tentar imaginar o Dia 13 de maio de 1888. Após a assinatura da Lei Áurea os abolicionistas comunicando o fato aos negros e negras que passaram a celebrar mas imediatamente os que viviam nas senzalas perceberam a triste realidade de serem expulsos das terras onde trabalhavam tanto ser receber qualquer remuneração ou indenização, sendo substituídos por imigrantes europeus remunerados.  Já os da Casagrande permaneceram como domésticos. Curiosamente, somente agora em abril de 2013 é que os domésticos conseguiram os mesmos direitos trabalhistas dos demais brasileiros. Seria a segunda libertação?
      A resistência dos senhores de engenho foi tão grande que existem relatos de feitores que insistiam em dar a última chibatada nos recém libertos. Alguns protelaram algum tempo dizendo não acreditar que a escravatura estava realmente abolida. Diz a lenda que, no projeto original, a Lei Imperial n.º 3.353 previa também uma reforma agrária onde os libertos receberiam terras para iniciar sua nova vida. A luta por justa distribuição de terra continua até os dias de hoje. O texto possível naquele dia foi simples “A Princesa Imperial Regente, em nome de Sua Majestade o Imperador, o Senhor D. Pedro II, faz saber a todos os súditos do Império que a Assembléia Geral decretou e ela sancionou a lei seguinte: Art. 1°: É declarada extincta desde a data desta lei a escravidão no Brazil. Art. 2°: Revogam-se as disposições em contrário”.
      Com o avançar do tempo passamos a falar em políticas públicas de reparação. A educação foi eleita como um dos vetores capazes de promover a igualdade racial e as cotas nas universidades foram destaques. O que representaria um avanço experimentado em outros países, passou a ser contestado e encontra grande resistência até hoje. O feriado do Dia da Consciência Negra também despertou a ira dos que estão preocupados com a redução de seus lucros. Consciência para que? Indagam. Racismo não existe! Vocês é que são racistas! Completam.
            Só que, circulando pelos shopping centers e grandes centros comerciais não encontramos muitos afrodescendentes, nas aeronaves e balcões das grandes companhias aéreas, também não.  Na televisão, os atores e os apresentadores são tão poucos que conhecemos todos pelo nome.  Estamos em poucas posições de destaques da sociedade. Talvez isso, explique os dados do IBGE que apontavam que em 2010, os brancos e asiáticos ganham salários que rondam os R$ 1.574,00 em média, quase o dobro de pretos (R$ 834,00), pardos (R$ 845,00) e indígenas (R$ 735,00). Isto em um país onde dos 191 milhões de brasileiros, 47,7% (91 milhões) declararam ser da raça branca, 15 milhões disseram ser pretos, 82 milhões pardos, 2 milhões amarelos e 817 mil indígenas.
            Para completar as estatísticas temos o Mapa da Violência apresentado em 2013 (com dados de 2010), destacando que a violência contra o setor negro é quase três vezes maior se comparado ao setor branco da sociedade. Segundo o levantamento, em 2010 foram assassinados 26.049 negros e 10.428 brancos. Em um trecho da pesquisa observamos que as taxas de homicídio da população preta – 19,7 óbitos para cada 100 mil pretos – são 88,4% maiores que as taxas brancas – 10,5 óbitos para cada 100 mil brancos. Isto é, morrem proporcionalmente, 88,4% mais pretos que brancos. Já a taxa de óbitos por armas de fogo dos pardos são 156,3% maiores que a dos brancos.
            É melhor parar por aqui. Hoje é Dia de Festa e me pego a escrever estas coisas que escancaram a realidade acobertada. Em memória aos milhares de negros e negras que morreram vítimas da escravatura e aos que resistiram e colaboraram de modo destacado para a construção desta grande nação. Celebremos a libertação que, ainda, está sendo construída. Aliás, há muito para se construir. Só para lembrar!