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domingo, 5 de janeiro de 2014

Artigo Jornal Tribuna em 05/01/2014

O Cidadão e a Construção



O talento nacional conseguiu produzir canções que retrataram o cotidiano do brasileiro de modo tão fidedigno que acabaram eternizadas. Embora longe da lista das mais tocadas do momento, certamente estão presentes em nosso imaginário e na boa discoteca. Duas delas merecem especial destaque. Lúcio Barbosa nos brindou com “Cidadão” gravada por Zé Geraldo em 1979 e depois regravada por Zé Ramalho e Silvio Brito entre outros.  A música enfatiza o sofrimento de um trabalhador com as precárias condições de trabalho e certo arrependimento por ter deixado a seca da região norte para buscar melhor sorte na região mais desenvolvida do país. Em seu lamento ele destaca que ajudou a construir edifícios e colégios, onde não pode sequer parar para contemplar e onde seus filhos jamais poderão estudar. Sua esperança é participar das atividades da Igreja e ser consolado pelo próprio Senhor, que também construiu o universo, mas diariamente é excluído da vida das pessoas. Entre suas pérolas, em 1971, Chico Buarque gravou “Construção”, onde apresenta a história de um anônimo operário da construção civil que engrossa a triste estatística de mortes por acidente no trabalho.  Além do requinte e ousadia no processo de composição poética e melódica, Chico enfatiza a crítica a sociedade capitalista que reduz o homem à condição de máquina. Ao narrar o último dia de um trabalhador que ama sua mulher, beija seus filhos, se dirige ao canteiro de obras onde constrói paredes sólidas, come feijão com arroz e cai de um andaime precário, ele encerra com o corpo que se transforma em um pacote flácido que atrapalha o trânsito. Estamos iniciando mais um ano, época de reflexões, planejamento e desejando mudanças. Nosso país experimenta uma explosão produtiva em vários setores, destacadamente no mercado da construção civil. Ocorre que os dados apontam a média anual de mais de 700 mil acidentes no trabalho, principalmente nos canteiros de obras. Reverter esta situação deve ser uma meta perseguida por autoridades, sindicalistas, empresários e toda sociedade em geral. As mortes no trabalho não podem servir apenas como indicadores em mapas estatísticos, nossa capacidade de indignação não deve se restringir a reclamar do trânsito que fica interrompido quando se está prestando algum socorro às vítimas dos intermináveis desmoronamentos.