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domingo, 9 de junho de 2013

Artigo Jornal Tribuna - 09.06.2013

Corpo e Sangue

Acabamos de viver mais um feriadão e muitos sequer sabem o que estávamos celebrando. Vamos lá! O calendário católico registra a Festa de Corpus Christi (Corpo de Cristo), realizada sempre na quinta-feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade. É crença na presença do corpo e sangue de Cristo no sacramento da Eucaristia instituído durante a última ceia.
Jesus rompeu barreiras e enfrentou preconceitos, propôs uma forma de vida baseada no respeito ao semelhante. Convidou todos ao exercício do perdão, a dar a outra face. Ensinou a humildade ao lavar os pés dos discípulos e deu a própria vida na cruz em sacrifício pelo seu povo. Exemplos fortes e difíceis de serem colocados em prática, especialmente nos tempos atuais.
No último censo, 87% da população brasileira declarou-se católica. 22,6% cristã de vários movimentos, entre os quais adventistas, batistas, evangélicos, luteranos, metodistas, presbiterianos, pentecostais, episcopais e restauracionistas.  Várias outras denominações religiosas também defendem a cultura da vida e da paz. Diante de uma estatística dessa, como explicar tanta violência e intolerância?
Nas mesas dos brasileiros, pouco a pouco a tradicional oração em agradecimento ao alimento é substituída pelo noticiário televisivo. Enquanto saboreiam um prato de macarrão ao sugo. Todos estão com suas atenções voltadas a mais um caso de violência. O repórter insiste em perguntar a mãe enlutada ou a recém-viúva qual o sentimento naquele instante. O apresentador fala de modo incisivo e pede intermináveis repetições das cenas de assassinatos. De modo enfático lança palavras de ordem. Todos estão estáticos enquanto o sangue que escorre pela calçada parece atravessar a tela do moderno televisor de alta definição.
           É como se todos nós estivéssemos impregnados por aquele líquido que, ainda, parece tão quente. Ao beber a cerveja ou o refrigerante é como se estivessem ingerindo um cálice de sangue. O espetáculo dantesco prossegue e logo começam os brados de justiça, a crítica repetitiva ao sistema judiciário e apelos pela redução da maioridade penal e implantação da pena de morte.
           Naquela mesa ninguém pergunta como foi o dia do outro. Ninguém comenta fatos tão singelos e belos do cotidiano, como o simples ato de acordar, caminhar, trabalhar, estudar e possuir uma família, um lar, um local para recuperar as energias. Estão todos hipnotizados pela insistente enxurrada de fatos negativos, de violência e de morte. No final, seguem aliviados porque a tragédia abateu-se em outro lar que não o seu.
Aos poucos todos começam a reproduzir a mesma violência que juram combater. Em casa e no trabalho se tornam agentes da morte.  A cordialidade dá espaço ao acirramento das relações. Motoristas e motociclistas transformam seus veículos em armas letais na guerra do trânsito.  Alguns adquirem armas de fogo imaginando que estarão mais protegidos. Nos estádios de futebol gladiadores uniformizam-se como se as camisetas dos clubes fossem armaduras. Até na moda a exaltação medieval às caveiras retornou presente nas roupas e acessórios.  
Em seus ensinamentos o Mestre afirmou “eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância” (João 10:10) passado tantos anos, ainda, não aprendemos a experimentar esta vida plena. Mas Ele é paciente e aguarda que um dia cheguemos lá.
Que o Príncipe da Paz possa nos inspirar na convivência tolerante e fraterna, capaz de justificar seu sacrifício supremo. 

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